Conheça as origens do gênero de mistério

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       Mistério é um gênero de ficção baseado na busca por respostas. Na literatura, a pergunta motivadora geralmente diz respeito a um crime (como assassinatos ou desaparecimentos), mas é possível trabalhar com outras coisas inexplicáveis também, como rituais cultistas ou dimensões paralelas. Qualquer questionamento sem resolução aparente pode produzir uma boa história de mistério.

    A postagem de hoje será uma introdução ao gênero de mistério. Vamos trocar uma ideia sobre o motivo desse gênero ter surgido e se desenvolvido, além de conversarmos sobre as primeiras grandes obras da Era de Ouro do Mistério. Sem mais delongas, basta Ler Mais!




Mais pessoas, mais crimes: o nascimento do gênero de mistério


    Antes da Revolução Industrial, as cidades costumavam ser bem menores. Por conta disso, a força policial também era menor. Na maioria dos casos, cada vila contava apenas com policiais de baixo escalão e vigias noturnos, os quais faziam o possível para ficar a par de tudo o que acontecia em seu pequeno perímetro de patrulha. Se um crime fosse cometido, ou ele seria rapidamente solucionado pela parca força policial ou ficaria em aberto para sempre. 

    Porém, as cidades começaram a crescer. Devido à migração de pessoas da zona rural ao perímetro urbano, muito devido ao desenvolvimento de fábricas e manufaturas, vilas se tornaram cidades e as cidades já existentes cresceram ainda mais. Com o aumento no número de pessoas vivendo sob condições de vida precárias, o número de crimes também aumentou, mas o tamanho da força policial institucionalizada permaneceu praticamente o mesmo. O resultado não podia ser outro: crimes sem solução pipocaram por toda a Europa.

    Nesse contexto, surgiram pessoas cujo ganha-pão era justamente o de investigar crimes. Os detetives profissionais fizeram sua primeira aparição em nossa realidade. Embora já houvessem histórias envolvendo enigmas e cifras escondidas, foi apenas nesse momento histórico em que a primeira "história de detetive" surgiu. Na edição de Abril de 1841 da Graham's Magazine, Edgar Allan Poe publicou "Os Assassinatos na Rua Morgue", uma história curta sobre um detetive amador que resolve investigar os assassinatos de mãe e filha, aparentemente mortas dentro de um apartamento trancado localizado na rua Morgue. 

    Porém, o sucesso dos mistérios não está ligado apenas às questões sociais e geográficas da época. O gênero de mistério pode ter surgido no século XIX, mas sua essência remonta ao Renascimento Europeu: com o desenvolvimento da literatura e da invenção da prensa móvel de Gutenberg, mais pessoas passaram a ter contato com os livros e a pensar por si mesmos, adquirindo informações diretamente da fonte. Além disso, o pensamento individual e a racionalidade humana eram características muito valorizadas pela sociedade da época. Portanto, nada mais justo do que um gênero pautado na solução racional de mistérios fazer tanto sucesso lá na Europa, berço do Renascimento e da Revolução Industrial.


Mistérios notáveis: uma linha do tempo


    Quase vinte anos depois da publicação de Os Assassinatos na Rua Morgue, Wilkie Collins publicou A Mulher de Branco (1859), considerado o primeiro romance de mistério. A Mulher de Branco conta a história do professor Walter Haltright e seu encontro com uma misteriosa Mulher de Branco, cuja aparição está envolta de mistérios e loucura. Posteriormente, Collins publicou A Pedra da Lua, considerado o primeiro romance  de detetives, cuja narrativa se constrói em torno do desaparecimento misterioso da Pedra da Lua (aha!), um diamante raro que estava sob a posse de Rachel Verinder, sobrinha de um oficial inglês que outrora roubara o tal diamante de sua localização original.

    Porém, o título de primeiro romance de detetives é contestado por dois outros livros. Em primeiro lugar, temos O Mistério de Notting Hill, publicado em 1865 por Charles Felix, que conta a história de um crime aparentemente perfeito, desvendado por meio de cartas, análises químicas, registros em diários e reconstruções forenses. Um ano depois, L'Affaire Lerouge (O Caso Lerouge, tradução livre) foi publicado por Émile Gaboriau, cujo desenvolvimento do mistério se pauta em encontrar e unificar evidências.

    Continuando no ano de 1866, Seeley Regester (pseudônimo de Metta Victoria Fuller Victor) publicou The Dead Letter (A Carta Morta, tradução livre), uma história sobre um jovem advogado e um detetive renomado resolvendo o crime de um homem morto com uma única facada. A publicação de The Dead Letter demarcou a primeira história de detetives publicada por uma mulher. Mais de 10 anos depois, Anna Katherine Green publicou The Leavenworth Case (O Caso de Leavenworth, tradução livre) em 1878, história sobre o assassinato de um rico comerciante aposentado, vendendo mais de 750 mil cópias nos primeiros quinze anos de sua publicação. Essas duas mulheres incríveis abriram espaço para as mulheres dentro da literatura de mistério.

   Conforme as cópias d'O Caso Leavenworth foram acabando e seu hype, diminuindo; Robert Louis Stevenson (o mesmo cara que escreveu A Ilha do Tesouro) publicou O Médico e o Monstro em 1886. Em seis meses, a história de Dr. Jekyll e Sr. Hyde já havia vendido mais de 40 mil cópias. Desde então, essa história ficou enraizada na cultura pop. Nesse mesmo ano, Fergus Humne publicou The Mystery of a Hansom Cab (O Mistério da Carruagem Hansom), uma história envolvendo a descoberta de um corpo em uma carruagem na cidade de Melbourne, Austrália.

    Entre o final de 1886 e início de 1887, Arthur Conan Doyle apresentou ao mundo a grande dupla de detetives Sherlock Holmes e Dr. Watson. Pela bagatela de 25 euros, Um Estudo em Vermelho, a história de um homem morto sem ferimentos, teve seus direitos vendidos pelo jovem Doyle de apenas 27 anos. Em 1888, Um Estudo em Vermelho foi publicado como um romance e, daí em diante, Doyle continuou publicando os romances de Sherlock Holmes, com destaque para O Signo dos Quatro (1890), O Cão dos Baskerville (1901-1902) e O Vale do Medo (1914-1915). Além disso, outras 56 histórias curtas envolvendo essa dupla também foram escritas por ele.

    Em 1908, Mary R. Rinehart publicou The Circular Staircase (A Escada em Caracol, tradução livre), um livro sobre uma tia que resolve mistérios numa casa de verão que inaugurou o eixo de mistério "Se eu soubesse", no qual o protagonista desconhece informações importantes e age de maneira precipitada com base nisso. Em 1911, G.K Chesterton publicou A Inocência do Padre Brown, inaugurando o eixo de mistérios aconchegantes, ligados mais à compreensão humana do que a raciocínios lógicos. 

    Já em 1920, Agatha Christie publicou O Misterioso Caso de Styles, no qual apresentou ao mundo seu extravagante inspetor Hercule Poirot. Em 1923, a escritora Dorothy L. Sayers escreveu Corpo de Quem?, no qual apresenta seu detetive ricaço Lord Peter Wimsey. Seguindo com as mulheres, Margery Allingham publicou O Crime de Black Dudley em 1929, protagonizado pelo altivo Albert Campion. Já em 1934, Ngaio Marsh publicou A Man Lay Dead (Um Homem Morto, tradução livre), cuja narrativa se baseia em um assassinato cometido durante um jogo de detetives. 

    E é com a Era de Ouro das nossas narrativas de mistério que eu termino a postagem de hoje. Uma postagem mais histórica do que o normal, sem dúvida. Por isso, gostaria de saber o que vocês acharam desse formato e se gostariam de conhecer mais sobre as origens e principais obras de outros gêneros. Voltaremos a falar de Mistério por aqui. Portanto, fiquem ligados!




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3 comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Eu lia livros de mistério mais leves durante a aula ou o intervalo quando estava no fundamental. Amava a coleção Carol e o Homem de Terno Branco e também o livro Sociedade da Caveira de Cristal.

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    1. Grandes mistérios infantojuvenis brasileiros. Boas recomendações!

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