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domingo, 27 de setembro de 2020

Diálogos Psicológicos: Por que o escritor escreve?

 
   Eu gosto de pensar a Psicologia como o campo do conhecimento que estuda as relações humanas: com o ambiente, com os pensamentos, com o Inconsciente e assim por diante. Porém, diferente das ciências clássicas, como a física e a química, o objeto de estudo e o pesquisador da psicologia são o mesmo. Na química, o pesquisador estuda as transformações da matéria. Na física, os pesquisadores estudam os fenômenos materiais. Na psicologia, o psicólogo — um ser humano — estuda o próprio ser humano. E é aí que as coisas ficam interessantes. 

    Quando humanos com histórias diferentes olham para o mesmo objeto, explicações diferentes vão surgir. Alguns desses caras vão se atentar mais ao comportamento do homem, enquanto outros estudarão o homem em relação ao seu contexto social. Outros ainda vão falar mais de linguagem, enquanto outros vão se focar nas emoções e pensamentos. É a mesma coisa com a escrita: ainda que Tolkien e Asimov sejam escritores de fantasia, cada um vê a fantasia e escreve fantasia de um jeito diferente! 

    Mas, Vong, pra que tanta ladainha sobre isso? Porque o mais novo quadro do MLN acabou de começar! E o tema do nosso primeiro "Diálogos psicológicos" é algo que todo escritor já pensou: por que cargas d’água eu escrevo? Para nos ajudar nessa, vamos dar uma passada na Viena do século XX e trocar ideia com um velhinho barbudo viciado em charutos. 




No fim, escrever é uma grande brincadeira 


    Se você é leitor, já deve ter pensado: “De onde esse cara tirou essa ideia? E como ele consegue fazer isso tão bem?”, enquanto se emocionava com a leitura de algum livro. Porém, quando foi procurar por entrevistas — ou conversou — com o autor, ficou desapontado com a resposta clássica de que “eu não sei como eu faço, eu só escrevo, e essa história nem é tão boa assim”. Cada vez mais, os escritores deixam bem claro que, em cada pessoa, existe um escritor em potencial — e que o último escritor desaparecerá com a morte do último ser humano.  

    Mas se todos podem escrever, por que nem todos escrevem? E, melhor, por que os escritores continuam afirmando que todos poderiam exercer a escrita? Para responder a essa pergunta, eu proponho que nós voltemos no tempo: vamos voltar para a infância. 

    A brincadeira é a atividade mais querida e intensa da criança. Ao brincar, a criança recria o mundo, utilizando os objetos reais ao seu alcance para criar um universo inteiro seu. E essa é uma atividade que a criança leva muito a sério, se importando muito com o que está sendo criado em sua fantasia e cuidando para que as coisas continuem assim — separadas da realidade. A criança gosta de basear sua imaginação nos acontecimentos do dia-a-dia, como a briga com um colega de escola ou o cuidado/broncas que ela recebe dos pais.  

    O escritor faz a mesma coisa. Ele constrói um mundo próprio, baseado na realidade, mas separado dela. Essa separação da realidade proporciona que, muito do que não poderia acontecer na vida real, seja possível de acontecer nesse mundo da fantasia. De acordo com essa visão, nós não deixamos para trás uma coisa da qual já gostamos: só trocamos o objeto do nosso gosto. Se já gostamos de brincar, apenas passamos o nosso gosto da brincadeira para o gosto da escrita – uma atividade parecida, como acabamos de conversar. Você pode pensar nessa troca como o ato da escrita: você escreve no papel, mas também consegue escrever no computador. É a mesma atividade em lugares diferentes. 

    Entretanto, por que paramos de brincar quando crescemos? Quando brinca, a criança está tentando ser igual ao adulto. Para isso, ela usa suas fantasias: suas tentativas de corrigir a realidade, que pode parecer muito chata, muito solitária, muito perigosa. Por exemplo: uma criança sem muitos amigos encontra, em um RPG online, um grupo de pessoas que parece gostar das mesmas coisas que ela. A partir daí, ela passa a ter alguns devaneios de que ela fará parte da mesma guilda que eles, que eles farão missões juntos, que se encontrarão pessoalmente, que dormirão na mesma casa e farão refeições juntos enquanto jogam RPG – assim, a realidade passa a se tornar mais colorida por meio da fantasia.
 
    Mas isso não acontece tão claramente com os adultos. Eles já entendem que a sociedade não espera que eles brinquem, mas que eles atuem no mundo real – trabalhando, escrevendo, produzindo. Por isso, os adultos tendem a esconder as fantasias mais antigas, algumas das quais serviam de combustível para as suas brincadeiras de criança. Então, em vez de brincar, o adulto passa a ter devaneios: a sonhar acordado, escondendo suas fantasias das outras pessoas. E é aí que o adulto não-escritor se diferencia do escritor. 

    Em vez de esconder para si suas fantasias, o escritor torna essas fantasias o instrumento de sua criação, utilizando seus devaneios pessoais para fazer com o que o leitor tenha prazer lendo sua obra. Isso ocorre quando escritor diminui a intimidade do seu devaneio, mudando os elementos e ocultando alguns deles. Assim, o que era muito particular se torna mais geral, cativando o leitor. Essa capacidade de cativar o outro a partir de sua própria fantasia escrita, mas modificada, é chamada de “prazer estético”. 

    Por meio do prazer estético, o escritor se usa do desejo de suas fantasias (agora mais gerais, modificadas durante a criação literária) e permite que o leitor desfrute ele, também, de suas próprias fantasias: que até então estavam escondidas de todo mundo - até dele mesmo. 

 


Em poucas palavras


O escritor escreve porque...  
motivado por um algum evento do seu presente, o escritor tem despertada em si a lembrança de alguma vivência anterior, geralmente de sua infância. A partir dessa lembrança, surge o desejo que realiza a criação literária - originalmente ligado às brincadeiras.  


Para saber mais, você pode ler:
Freud, S. (1908[1907]/1980). Escritores criativos e devaneios. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 9, pp. 147-158). Rio de Janeiro: Imago.

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