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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Uma Jornada de Natal: Os Extremos Descritivos – Última Parada


Que silêncio constrangedor. Recostado na janela ao seu lado, Ferona fecha os olhos por um instante. Desde que saíram da Estação da Enciclopédia, ou melhor, desde que toda a Jornada começara, o escritor não tivera tempo de colocar as ideias no lugar. Agora, pelo menos ele poderia ficar mais tranquilo e tentar digerir todos os acontecimentos e ensinamentos. Quem sabe, descansar um pouco também. Entrar em contato com portões e espíritos não é das coisas mais relaxantes, para piorar, com um frio desses. Mas Ferona agora tem um suéter quentinho, uma poltrona macia e confortável, a paisagem não muda, só neve e mais neve...

— Não há tempo para sonolência.

E, assim, o condutor-roupa se manifesta pela primeira vez desde que o trem voltara a andar. Uma interrupção cirúrgica, discutivelmente necessária. Talvez esse homem não seja do tipo falante, mas há mais coisa por trás disso.

— Eu não gosto de gastar palavras.

Na última de nossas postagens a bordo do Expresso Descritivo, abordaremos algumas questões que afligem muitos de nossos autores iniciantes: é preciso mesmo descrever? Qual será o momento certo de deixar o narrador falar? E será que é possível que a melhor descrição seja aquela que não existe?

Faça como Ferona e se ajeite aí na cadeira: é momento de conhecermos o extremo máximo que esteve presente desde o começo. É hora de falarmos sobre quando não descrever.


Então... Você vem?


Descrições são um dos aspectos mais relevantes de qualquer texto e você já deve estar bem ciente disso. Uma boa contextualização é capaz de envolver o leitor e fazê-lo imaginar mundos nunca antes vistos ou pensados por ele. É capaz de mostrar os mais diferentes eventos acontecendo em poucos minutos. E, ainda, as descrições têm o poder de revelar pequenos detalhes que fazem toda a diferença para a compreensão de seu mundo, cena e personagem.

Como já falamos na postagem sobre Especificidade, pequenos detalhes importam. E eles podem vir na forma de qualquer um dos aspectos narrativos: uma brincadeira na ortografia; uma troca de pontos em pontuação; um detalhe minúsculo descrito com vivacidade nas descrições; uma frase-chave revelada pelos diálogos ou uma construção de história que propicie um momento intrigante quando falamos da narração em si. Veja que, a partir da utilização de qualquer um desses tipos de artifícios (quando bem feito), é possível revelar detalhes interessantes e importantes que servem para a construção de qualquer objeto da sua história.

Portanto, decorre desse fato justamente um dos motivos para não utilizar descrições: quando outros artifícios já fizerem isso por você. As descrições são ferramentas que normalmente tendem à exposição, ou seja, elas permitem que você revele coisas que normalmente passariam batidas. A explicação de um poder, a origem de uma cidade, a beleza de um monumento. Enfim, elas possibilitam ao escritor um maior controle sobre o mundo criado, podendo mostrar mais disso e/ou menos daquilo, de acordo com o que a trama pede no momento. Afinal de contas, vamos pensar: será mesmo que falar do surgimento do seu mundo logo na primeira página faz sentido para o que vem a seguir? Uma ligação clara e direta que possa fazer o leitor ligar os pontos? Ou isso é somente sua vontade de falar logo o que você quer falar?

Você pode muito bem se utilizar de outros artifícios menos óbvios e cansativos do que três páginas de puro texto para passar sua informação. Muitas vezes, você pode recorrer a um dos amigos mais próximos das descrições: os diálogos. Em vez de 

"O mundo surgiu há 3 milhões de anos, fruto da colisão entre dois seres celestiais. Luz e Sombra se contrapunham e assim formaram a essência de tudo: o caos. E, do caos, surgiu a ordem. E da ordem, tudo o que conhecemos hoje, inclusive os humanos. E eles, por sua vez, devotos e servos da ordem, logo domesticaram-na, manipulando os elementos a seu favor."

você pode tentar...


Filho,  eu acho que tudo o que existe só existe porque temos duas coisas: a ordem e a ganância. A Ordem é o ponto celestial de onde tudo parte e para o qual tudo retorna. A ganância, por outro lado, é o impulso humano que nos permite perseguir esse ideal ordenado, manipulando seus frutos a nosso favor. Eu acho que, sem sermos ordenadamente gananciosos... O mestre abriu um sorriso. Nós nunca sairíamos do lugar.

Veja como as coisas ficam mais agradáveis de ler quando deslocamos a informação para os diálogos. Isso acontece porque os diálogos possuem uma coisa que as descrições raramente vão apresentar: a possibilidade de mostrar mais do que está sendo dito. 

Vamos pegar esse diálogo-exemplo ali de cima. Na descrição original, tínhamos as informações sobre o surgimento do mundo: quantidade de tempo, luz e sombra, caos, ordem e domesticação da ordem. Mas a informação principal, como fica claro na descrição, é o fato de os humanos manipularem a tal Ordem a seu bel-prazer. No diálogo, nós pegamos justamente esse fator essencial e o utilizamos para, através do personagem, também ensinar o leitor. E, mais do que isso, também acabamos revelando: a relação entre os personagens, o grau de instrução e intimidade do personagem e parte sua personalidade. Tá duvidando, é? Pois veja.

Filho (revela certo grau de intimidade/carinho para com o interlocutor),  eu acho (revela incerteza acerca do que sabe, não parecendo ser egoísta ou ditador) que tudo o que existe só existe porque temos duas coisas: a ordem e a ganância (colocar a ordem antes de ganância mostra que a primeira tem mais importância na vida do personagem). A Ordem é o ponto celestial (ponto celestial se contrapõe com...) de onde tudo parte e para o qual tudo retorna. A ganância, por outro lado, é o impulso humano (... impulso humano, mostrando a dicotomia entre a física e a metafísica) que nos permite perseguir esse ideal ordenado (o personagem mostra que o mundo celestial, ordenado, é o ideal) manipulando seus frutos a nosso (o personagem se inclui, mostrando ter culpa na fita) favor. Eu acho que, sem sermos ordenadamente gananciosos (o personagem mistura ordem e ganância, criando uma contraposição divertida e revelando que ele, também, talvez o seja)... — O mestre abriu um sorriso. (O personagem se diverte com sua própria colocação, mostrando que até ele pode ter ficado surpreso com o que disse...) — Nós nunca sairíamos do lugar. (... ou planejando dizer algo mais forte no final.)

Dá uma olhada na riqueza de detalhes que um simples diálogo gerou. Na descrição, as informações passadas também foram interessantes, mas não tinham o peso dramático que o diálogo agora possui. É como se elas ganhassem brilho ao sair da boca do narrador e passar para a boca do personagem. Assim, se você puder (e quiser) utilizar esse artifício, o faça. Mas também não é para sair por aí fazendo diálogo expositivo a torto e à direita!

O silêncio continua o mesmo, assim como a expressão do maquinista. De vez em quando, ele coça o bigode. Ou ajeita a gravata. Ou, quando necessário, se prontifica a descer do trem para verificar se algo tinha acontecido com a maquinaria lá fora. Um mínimo impedimento (ou grande, se contar a espessa camada de neve) é capaz de parar por completo o Expresso: o que justamente acontece.

— Droga. Desce.

A escuridão gelada do lado de fora parece não assustar o maquinista. Com sua lanterna de bolso e seu copiloto que treme de frio, o uniforme de bigode encontra o problema. Um grande tronco de árvore no meio dos trilhos. Olhando para frente, percebe que não falta muito para chegarem até o destino. E olhando para o lado, percebe também que seu corajoso autor não está mais aguentando a baixa temperatura.

— Toma. Vamos andando. — Removendo o cachecol ao redor de seu pescoço (e agora se assemelhando muito ao Espírito do Portão), o condutor o arremessa no rosto de Ferona e continua sua trajetória no meio dos trilhos. — Falta pouco. Coloca isso e trate de parar de tremer. E fique perto.

Tentando não parecer tão desastrado, Ferona coloca seu cachecol de qualquer jeito e já parte na direção do maquinista. Em meio à escuridão, algumas luzes passam a revelar as grandes janelas de uma grande e quentinha construção. Mas, até lá, é preciso andar ao lado do condutor-uniforme e apreciar o silêncio agoniante que tanto os acompanhou até agora.

Não só na escrita, mas principalmente nela, devemos aprender a quando parar de falar. Nós, enquanto autores e narradores. Chegará o momento de sua história na qual sua presença será irrelevante e até poderá atrapalhar a mensagem que você está tentando passar. Nem sempre a presença constante de um narrador que tenta brincar ou intervir de qualquer outra forma é necessária. E, do mesmo jeito, nem sempre a descrição de algumas coisas vai servir para contar sua história melhor.

Se não for necessário, pare antes mesmo de começar. Se não for tão necessário, também. Sua presença na história deve ser cirúrgica e pensada. Assim, outra condição que te impede de descrever é se a informação idealizada for irrelevante para a trama avançar naquele momento.

Seu personagem tem olho azul? Que legal, mas no que isso vai impactar no que vai acontecer daqui a pouco?
Ah, só ele, da família toda, tem olho azul? Isso é interessante mesmo.
E a trama é toda familiar? Caramba, então essa informação é muito importante nesse contexto.
Então descreva! Mostre!

Por fim, podemos colocar uma última consideração sobre a não-descrição, parecida com a primeira e misturada com a segunda, atrelada também ao que já conversamos sobre a telepatia do escritor. Suponhamos que o seu personagem é um imigrante japonês no Brasil, por exemplo. Um velhinho recém-chegado que ainda não conhece muito bem a língua. Antes de você introduzir uma descrição de roteiro descrevendo o senhorzinho do primeiro fio de cabelo até a última unha do pé, pense um pouco. Primeiro: há coisas ali que você não precisa falar. Segundo: se você trabalhar bem seus diálogos, sequer precisará dizer que seu personagem é um imigrante recém-chegado do Japão. É desnecessário e, melhor ainda, seu leitor vai perceber sozinho.

E, confie em mim: quando seu leitor descobre algo verdadeiro por si só, ele não quer parar e te acompanhará até o fim. Aguentar a frustração de ficar calado pode ser difícil, mas com certeza ela é recompensadora. Vai por mim, esse é um bom caminho a seguir.


— Finalmente. Avance. É aí que precisa entrar — diz o maquinista, agora passos atrás do autor. 

Agora, tudo passa a ganhar cor. As árvores continuam ali, fazendo companhia para bancos e postes de luz. Porém, caso alguém desejasse seguir adiante, precisaria passar pelo meio da Grande Biblioteca. As luzes acalentam a alma e o corpo de Ferona, que já não precisa mais de seu cachecol. Virando-se para trás, ele estende o braço para devolvê-lo ao seu dono por direito.

O farto bigode no rosto invisível do maquinista se arqueia, assim como suas sobrancelhas que cobrem olhos que não existem. Pegando gentilmente o cachecol com suas luvas de inverno, o espírito o coloca em volta de seu pescoço. Após voltar a sua forma original, o uniforme de bigode e cachecol coloca sua mão direita no ombro de Ferona e, com a outra, aponta em direção à construção de madeira logo à frente.

— Lembre-se, pequeno. O silêncio é sua maior arma contra o que está por vir. Vá. Eu ficarei aqui, quieto, olhando por você.

Sorrindo como o maquinista, Ferona apressa o passo a caminho da Grande Biblioteca da Verossimilhança. Antes de abrir a porta, porém, decide dar o último adeus ao Espírito que lhe acompanhara durante a noite gelada de Natal. E se o maquinista ainda estivesse ali, talvez  ele realmente retribuísse o gesto. 

Mas, afinal, o frio pesa e é hora de virar a página. O suéter, a neve e o Expresso das Descrições ficam para trás com a girada da maçaneta, como se o capítulo dois estivesse encerrado. Todavia, até que um novo Expresso não cairia mal. De preferência, com um pouco de açúcar e uma dose farta de  paciência para suportar o mais novo Espírito que estava por surgir.

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