A Jornada de Natal da Célia - Parte 2

1

 

— Eu juro que se eu ver mais um copinho de plástico com resto de café de anteontem em cima de qualquer uma dessas mesas, eu vou destruir todas as máquinas de café desse lugar e colocar a culpa no Kyn.


       Eu odeio várias coisas na minha vida. O fato de o sol sempre bater na minha cara quando eu acordo, independente da minha localização geográfica; a capacidade que meus três gatos têm de destruir qualquer vaso de vidro que eu ameace comprar; ouvir sermão de autor iniciante que se acha o dono do universo porque escreveu meia página de uma fantasia tão original quanto todos aqueles outros manuscritos que eu ateio fogo todos os dias; e os restos pútridos dos cafés de algumas pessoas desse lugar, as quais adoram fingir que esse líquido saborosamente amargo tem qualquer capacidade de lhes retomar a vontade de encarar um dia de trabalho. Porém, de todas as coisas que eu odeio, nenhuma delas se iguala a ficar presa no meu trabalho. Essa, de longe, está sendo minha pior experiência de vida.

Pior até mesmo que minha época de estagiária.

Aparentemente, meus novos chefes se importam tanto comigo que me deixaram fazendo hora extra e me trancaram aqui. Não consigo sequer sair daqui para ir à cozinha ou à recepção. Eu não sei se é um problema no sistema de alarmes ou se é só a minha sorte grande falando mais alto. Calma, pode ser isso. Se for um problema nos alarmes, eu sei com quem falar. Por favor, entidade cósmica que se diverte com meu sofrimento, me ajude só dessa vez.

— Alô, Felipinho?

😊 🙃 🤔? — Os barulhinhos característicos do Felipinho ressoam do outro lado da linha.

— Então, eu preciso da sua ajuda. Eu tô presa aqui na sede do MLN.

😱 😱 😰 🤯 😵! — exclama nosso segurança, que provavelmente também é a melhor pessoa desse lugar inteiro.

— Pois é, é uma merda — suspiro. Finalmente alguém que me entende. Eu sempre gostei de você, Felipinho. — Eu estou achando que é uma avaria no sistema de alarmes que o Vong trocou recentemente. Ele nem sabe mexer num smartphone direito e me colocam o idoso confuso com a tecnologia para trocar isso. Enfim, você pode ver isso pra mim?

🤔 😉 🛑.

— Certo, eu espero. — Eu solto um suspiro mais aliviado enquanto ouço o barulho das teclas do outro lado.

Ver esse lugar vazio me passa uma sensação muito estranha. Eu estou acostumada com aqueles maníacos correndo para cá e para lá com copinhos de café e manuscritos, gritando que estão atrasados para alguma coisa, que a postagem tinha que sair ou que o Kyn nos colocou em alguma saia-justa de novo. É assim que as coisas funcionam aqui. Todos os dias da semana e até mesmo nos finais de semana, a staff enche esse lugar de lembretes, exclamações inflamadas de repúdio e comemorações de sorte em gachas. Ficar aqui, sozinha, me passa um sentimento oposto do usual. É quase como se...

— Ah, Felipinho. Oi, desculpa, me perdi na escuridão mórbida das minhas memórias por um momento. Alguma novidade?

😔 🙁 🔧 💻 .

— Não... — Alguma parte de mim já esperava por isso. — E você não consegue contatar o pessoal da empresa de segurança nem nada assim? A Tany tem o contato deles, hackeia o celular dela.

😵👨‍💻📱❌🚺🔪💀! — Uma exclamação desesperada nada característica do Felipinho.

— Felipinho, ela não vai te matar — digo, tentando reduzir a frequência dos batimentos cardíacos dele. — Eu acho.

🤔😶😲🏹🏴‍☠️.

— Como poderia esquecer? Esse dia foi muito engraçado. — O Felipinho ficou morrendo de medo da Tany depois de ver aquilo. Coitadinho, era o primeiro dia dele aqui e teve que presenciar uma cena daquelas. — Bom, é isso, então. Obrigado por tentar.

😕👍 🤝 😭.

— Não precisa ficar triste. Você fez o possível... — digo, abaixando o tom de voz. — Eu espero. Vejo você amanhã de manhã, colega.

            Felipinho desliga a ligação antes que eu possa continuar brincando de ameaçá-lo. De todo mundo aqui, ele é a última pessoa sobre a qual eu concretizaria qualquer atentado à existência. Mas é bom que ele saiba dos perigos.

            — Sozinha aqui de novo... A paz reina.

            Acredito que me resta apenas continuar vagando pelo escritório em busca de alguma coisa para me adormecer ou fazer o tempo passar mais rápido. De preferência, algum elixir mágico retirado de um isekai ruim que aquele povo gosta de ver. Pensando bem, eu acho que sei muito bem onde achar algo que vai me fazer cochilar em menos de trinta minutos.

            — Departamento de Descrições.

            Apesar de todos os departamentos se chamarem “Departamento de Alguma Coisa”, eles não são realmente departamentos. São apenas mesas cercadas por divisórias de escritório, baixas o suficiente para que ninguém tenha a visão obstruída, por mais baixinho que seja. Então, em vez de imaginar que estamos dentro de um local compartimentalizado por salas de verdade, pense que esse lugar é um aglomerado de mesas contornadas e não-contornadas por pequenas divisórias de escritório sem uma lógica evidente. Tipo uma redação de jornal.

            O Departamento de Descrições foi um dos primeiros departamentos do MLN, junto de todos os outro cinco que compõem o grupo de avaliação. Você pode identificá-lo por meio dos adereços que o chefe do departamento colocou na divisória de sua mesa. Por alguma razão que eu não sei e não quero saber, o gênio colocou pequenas prateleiras afixadas na divisória, sobre as quais ele guarda livros de bolso, dados de RPG de mesa e algumas caixinhas — que eu suspeito guardarem os remédios de pressão dele. Além de ocupar espaço precioso do corredor, é fácil de identificar. Só ver qual das mesas tem prateleiras penduradas e você o encontra.

            — Ok, vamos ver se ele tem algum remédio para me fazer dormir.

            Estendo minha mão para uma das pequenas caixinhas de madeira, colocadas praticamente equidistantes dos livros. Ao que parece, todas elas têm símbolos diferentes na tampa. Bem, veremos o que nos aguarda nessa caixa com um adesivo de vários “Z”. O modo usual de representar que alguém está adormecido. É tudo o que eu preciso agora.

            — Eu devia saber. É claro que seria uma coisa estranha.

            Meu grau de surpresa está em 6.54 em uma escala de um a dez. Uma parte de mim esperava um remédio para dormir, mas outra parte sabia que não seria tão fácil assim. Qual foi minha surpresa ao descobrir que essa caixinha continha um pedaço de papel amassado. Após um longo suspiro, coloco a caixa de volta no lugar e abro o papel que parece ter sido retirado de um caderno escolar. Se é que existiam cadernos na época em que esse homem nasceu.

             “hafhvvr”? — Um olhar de profunda indignação e consternação se apossa do meu rosto. — Esse velho tá caduco, só pode. Cara estranho.

            E voltamos para a estaca zero. Essas letras juntas não têm o menor sentido. Parece algum jovem rindo por meio de movimentos aleatórios e repetitivos sobre um teclado, o que produz letras que não transmitem nenhuma emoção para mim além de desgosto. Improvável ser algo relacionado a jovens. Algumas pessoas dessa equipe não gostam de jovens. O velho e eu somos alguns dos representantes dessa singela categoria.

            Sem mais nada para fazer e ainda encasquetada com essa mensagem febril, percebo que estou cansada de ficar em pé. Aproveito a proximidade com uma cadeira de escritório bastante confortável e sento-me nela.

A mesa do bigodudo é realmente bem organizada. Algumas canetas dentro do porta-canetas, um porta-retratos com uma foto minha ao lado de duas cosplayers de gacha — essa história é boa, eles ficaram bufando de raiva, mas eu conto quando não estiver presa aqui —, um bloquinho de anotações e um computador de mesa mais tecnológico do que eu esperava. Na verdade, é só um computador normal. Eu esperava que ele tivesse um monitor de tubo branco-amarelado para combinar com todo o estilo de velharia que ele tem, junto de algumas caixinhas de som na mesma coloração. Mas parece que não. Entretanto, tem algo mais errado.

            O computador está ligado. E o Vong nunca deixa o computador ligado depois de trabalhar. Mais estranho ainda, a tela que eu vejo não é compatível com o sistema operacional não-nomeado que utilizamos aqui no MLN. Parece, agora sim, oriunda de uma tecnologia muito mais velha. Um fundo totalmente preto e letras brancas com fonte quadrada, além de um retângulo branco que pisca incessantemente, são os únicos elementos visíveis.

            — Insira seu nome... — sussurro para mim mesma. — Ele formatou o computador antes de sair? Bom, que seja.

            Eu digito “Vong” e uma mensagem aparece na linha logo abaixo: “Entrada incompatível. Tente novamente.”

            — Hm...Vamos tentar a chefa dessa vez.

            Entrada incorreta.

            — Mas que... — Um suspiro violento acompanha meus pensamentos assassinos. — Tá, vamos tentar... Kyn.

            A tela subitamente pisca em branco, quase danificando meus nervos ópticos de maneira irreversível. Eu ganharia uma boa indenização se isso acontecesse mesmo... Mas eu precisaria conseguir direitos trabalhistas antes.

            — OLÁ, KYN! — Um velho de bigode, óculos, barba pouco aparada e vestindo roupas sociais aparece na tela. — Eu sabia que você tentaria entrar no meu novo sistema de segurança quando eu não estivesse por perto para ver qual combo eu preparei dessa vez para detonar seu dragão vermelho mais uma vez. Mas isso não vai acontecer, amigão.

            — Você é mais esperto do que eu esperava... — Confronto as olheiras velhas no vídeo pré-gravado que continua a tocar. — Mas, graças às minhas gatas, eu não sou o Kyn.

            — Mas é claro que eu não gravaria esse vídeo apenas para tirar uma com a sua cara. Eu já fiz isso antes, então agora perdeu a graça. Eu vou te liberar meu combo de quatro ataques garantidos críticos em um único turno...

            — Eu não poderia estar mais desinteressada nisso. Adeus, velho.

            — Além de liberar a senha do sistema de segurança que trancou definitivamente nesse exato momento. — Um sorriso branco-amarelado me encarou. — Você podia ter saído até o momento em que deu play nesse vídeo, mas agora a saída realmente está trancada e você ficará sem sinal de telefone em 3, 2, 1...

            — Você nã- — Puxei meu celular em um golpe rápido, como um assassino que puxa sua faca preferida, e constatei o terrível fato. Eu estava sem sinal e...

            — E sem internet também, aliás. É isso o que você ganha por tentar se vingar dos suportes. Você pode ficar preso aí por sei lá quanto tempo ou exercitar seu intelecto de investigador para tentar sair mais rápido. Sem bons romances. Sem bons mistérios. Bem, chega disso. Agora é contigo. Receba a inspiração. Uma boa noite.

            — Quando eu sair daqui, a primeira coisa que eu vou fazer é trazer um barbeador e retirar esse seu bigode com a maior gentileza do mundo. — Meus olhos se inflamam com os pensamentos de vingança, ódio, desgosto e malignidade. — Mas eu preciso sair daqui primeiro.

            Certo, algo me diz que essas caixinhas têm algo a ver com isso. Esse ser humano arcaico tem um gosto peculiar por enigmas. Certa vez, um autor iniciante quis escrever um mistério e pagar de bonzão. Ele encheu a prosa de termos técnicos e jargões forenses tentando mascarar a falta de conhecimento sobre como escrever um texto minimamente interessante. Pelo esforço, o bigode respondeu com uma avaliação todo escrito em criptografia. Reza a lenda que o rapaz ainda está tentando entender o texto.

            — Resposta... — A palavra aparece na tela, indicando vagamente o que eu preciso fazer para sair daqui. Além disso, há um botão que parece permitir tocar o vídeo de novo. — Encontrar uma resposta.

            Se tem uma coisa que eu aprendi durante esse tempo aqui, além de criar mecanismos para lidar com o estresse, é que narrativas exigem planejamento. Narrativas de mistério, principalmente, geralmente são construídas a partir do fim. O autor imagina o final e, a partir dele, vai criando as pistas que levam até aquele determinado cenário. Essa minha situação não está muito distante de um assassinato, então vou tentar pensar em retrospecto.

            Uma coisa em específico me incomodou nesse vídeo. Por que ele me disse “boa noite”? Esse vídeo poderia ter sido reproduzido a qualquer momento do dia, afinal, pessoas podem ficar presas em suas empresas em qualquer período. O Kyn, especialmente, já se trancou aqui dentro em um domingo à tarde.

            Eu vou play no vídeo de novo e começo a analisar o que o velhote está falando. Nessa segunda visualização, algo me parece estranho, mas eu não consigo identificar exatamente o que é. Sabe quando uma entidade paranormal se apossa do corpo da vítima indefesa e passa a manipulá-la para seus propósitos malignos, mas sua inaptidão de se comportar como um humano produz comportamentos ligeiramente mais estranhos do que o usual? É mais ou menos essa a sensação.

            — -citar seu intelecto de investigador para tentar sair mais rápido. Sem bons romances. Sem bons mistérios. Bem, chega disso. Agora é contigo. Receba a inspiração. Uma boa noite. — Ele para de falar pela terceira vez.

            Espera, é isso. Três vezes. As últimas frases foram ditas de maneira mais pausada, quase como se estivesse enfatizando alguma coisa. Todas elas são compostas por três termos. Três termos... Uma boa noite... Eu sabia que essa caixinha tinha algo esquisito.

            — “hafhvvr”... — Eu releio o pedaço de papel mais uma vez. — O que isso poderia ter a ver com o número três? Estou ficando ainda mais nervosa com você, velhote.

            Deixo o papel em cima do teclado e me volto para as outras caixinhas nas prateleiras. Por entre light novels e livros de escrita criativa, as outras caixas também possuem símbolos no topo: um tipo de flor roxa esquisita, uma cestinha de mercado e... um ovo? Eu achei que ele estivesse senil, mas isso é demais até para ele.

            — Ok, deixa eu tentar pensar nisso racionalmente. Isso está planejado demais para ser só uma diversão de aposentado. Ou não, eu sei lá.

            Um símbolo de sono, uma flor roxa, uma cestinha de mercado e um ovo. E o número três. O que a cestinha de mercado tem a ver com o três? Antes de mais nada, eu vou abrir essas caixas e ver o que tem dentro. Um passo de cada vez, Célia, do mesmo modo que você aprendeu naquela biografia do avental de couro.

            Eu posiciono todas as caixinhas na frente do teclado e abro uma por vez. A caixa do sono já fora aberta, então apenas a posiciono ali como lembrete. Na caixa da flor roxa, vejo uma flor azul e uma flor amarela que foram assassinadas brutalmente por um velho obcecado por enigmas. Na caixa da cestinha de mercado, uma foto de um personagem genérico de anime com cabelo preto, olhos pretos e roupa preta. Por fim, o conteúdo da caixa com o ovo revela... uma equação matemática.

            — Eu quero tanto, mas tanto, que esse velho apareça nessa tela mais uma vez para eu quebrá-la no chão e colocar a culpa no Kyn.

            Dadas as evidências bastante sólidas e que me deixam bastante animada para colocar em risco minha possibilidade de viajar para outros países ou arranjar um emprego decente, eu respiro fundo por uma quantidade razoável de tempo até sentir que minha pressão abaixou. Ao olhar para o monitor, vejo que o campo de resposta ainda está pedindo por uma senha.

            A primeira caixa continha símbolos remetendo ao sono e o velho falou em noite. Provavelmente isso está relacionado. Além disso, as últimas frases continham apenas três palavras. O que eu consigo fazer com essas letras estranhas e o número três?

            — Eu posso tentar... — penso em voz alta, já que não tem ninguém aqui além de mim e os fantasmas do natal passado. — Voltar as letras?

            Pego um lápis qualquer de dentro do porta-canetas e começo a verificar quais letras estavam três posições atrás de cada uma das letras do papel estranho. Para trás de H, temos G, depois F, depois E.

            — A primeira letra é E — digo, escrevendo a letra nova abaixo da letra da frase antiga. — A próxima é... Antes do A? Eu volto pelo final do alfabeto? Então é Z, Y... X. A segunda letra é X.

            Assim, continuo voltando as letras em três casas até que uma palavra se forma: “excesso”. Pelo menos agora tenho algo legível. Considerando que estou no departamento de descrições, uma das coisas que eles mais reclamam aqui é de autores que escrevem demais, que descrevem desnecessariamente. Autores que eu costumeiramente fico feliz em ver a decadência. E eu lembro que esse tipo de atitude tinha um nome...

            — Overwriting? — penso em voz alta. — Não custa tentar.

            Eu digito “overwriting” no computador e aperto Enter. Três pontinhos aparecem e começam a piscar, como se o computador estivesse processando o comando.

            A tela pisca em branco mais uma vez, causando danos irreversíveis ao meu sistema visual. Porém, dessa vez, uma grande mensagem em letras brancas aparece no topo: “Parabéns. O primeiro dígito é 2. Três dígitos restantes.”. Logo abaixo, vejo a miniatura de um vídeo esperando para ser assistido.

            Sem pensar duas vezes, eu anoto o número 2 no verso do papel que estava utilizando. Finalmente estou mais próxima de sair desse inferno. Hora do próximo vídeo.

            — Veja só, parece que alguém conseguiu passar pela primeira parte. Essa data vai entrar para a história. As coisas não vão ficar mais difíceis, pode ficar tranquilo. — O idoso aparece mais uma vez em seus trajes sociais, dessa vez degustando uma xícara de café. — Apenas continue pensando do mesmo jeito que está fazendo agora. Um dia você consegue!

            — Que ótimo. Uma mensagem ainda menos útil que a anterior.

            Parece que estou por minha conta de novo. Após o vídeo tocar, o campo para resposta é liberado logo abaixo. Vamos para a flor roxa e ver o que eu consigo pensar.

            Uma caixinha com um adesivo de flor roxa no topo... Parece que ele retirou isso de alguma cartela de adesivos infantis. Na verdade, ele deve ter comprado um caderno de florzinha só para conseguir isso aqui. Eu vou averiguar essa informação na prestação de contas da empresa. Alguém será acusado de desvio de verba.

            Além disso, o conteúdo da caixa de flor roxa eram duas outras flores mortas: uma azul e outra amarela. Na melhor das hipóteses, isso significaria que eu deveria liberar um pouco mais de oxigênio desse mundo ao findar a existência parca e dolorosa de pessoas vestindo azul e amarelo. Entretanto, eu estou sozinha aqui agora — para minha felicidade e infelicidade. Hipótese descartada.

            Uma vez que isso aqui foi feito pensando no Kyn, provavelmente não envolve nada que uma pessoa normal não consiga pensar ou suportar. E já que o último tema estava alinhado com o conteúdo desse departamento, suponho que esse esteja também, visto que o pensionista do INSS me disse para continuar pensando do mesmo jeito. O único problema é que não tem nenhum número para eu reverter as palavras dessa vez.

            — O que mais o Senhor Estagiário tem aqui?

            Levanto-me da cadeira e começo a procurar nas prateleiras mais próximas. Algumas edições de Sociedade dos Magos, Estrela Morta, A Sociedade dos Magos... Olha só, tem um rascunho daquela novel proibida aqui também. De repente, me deparo com uma quantidade relativamente exorbitante de encadernados, enfileirados lado a lado e etiquetados por data. Deve haver pelo menos trinta deles aqui.

            — Mas o quê?

            Pego o primeiro encadernado e abro na primeira página. O título é “Descrições: Os Perigos da Caverna”. Eu reconheço vagamente esse título, mas algo nele me faz ter a certeza de que eu sei o que isso é. Folheando as páginas, vejo textos de referência, recomendações de fontes para leitura posterior, anotações, rascunhos de postagem e, ao final, a postagem original que foi parar no MLN. Ao que parece, o analógico não confia o bastante na tecnologia para colocar nas mãos de um servidor todo o conhecimento que ele já produziu. Estúpido, mas sábio.

            — Um acervo das postagens. Pode ser útil.

Sento-me no chão e começo a retirar um encadernado após o outro, organizando-os por data de maneira crescente. O mais antigo fica à minha esquerda e, a partir dele, todos os outros vinte e nove são alinhados para a minha direita. Para facilitar as coisas, também abro todos eles na página que contém o nome final da postagem — aquele que efetivamente foi publicado.

            — Mais fácil do que eu imaginava. — Meu trabalho é organizar documentos o dia todo, além de outros inúmeros serviços que sequer constam no registro de empreendedores individuais. Com o tempo, fiquei boa em organizar coisas rápida e eficientemente.

            Uma das postagens publicadas carregou o título final de “O que são prosas púrpuras, beges e azuis?”. Uma flor roxa, uma azul e uma amarela — porque a visão do octagenário já não deve ser das melhores nessa altura da vida. Entretanto, não acredito que a resposta seja um título completo. Existe algo nesse vídeo que eu não entendi.

            — Vai, fala de novo — digo, iniciando o vídeo novamente.

            O vídeo é reproduzido mais uma vez. Porém, agora, eu estou prestando atenção redobrada em todas as palavras. O segredo anterior estava na quantidade de palavras, mas agora não parece ser isso... Deve ter algo a mais.

            — Hm... — murmuro, franzindo o cenho. — Essa data vai entrar para a história... Um dia... Duas palavras indicando um tempo.

            Volto minha atenção ao encadernado da postagem sobre prosas púrpuras e procuro pela data de publicação. Não está aqui em cima, nem no corpo do texto... No rodapé. Uma anotação em lápis discrimina a data que eu procurava.

            Sem pensar duas vezes, eu volto ao computador e escrevo: 06/02/2018. Enter. Os três pontinhos começam a piscar, um após o outro. O sistema está pensando. Eu estou pensando que esse computador precisaria de uma melhoria para funcionar mais rápido. Em poucos instantes, meus neurônios visuais registram um clarão branco que os degenera mais um pouco.

            A nova tela, similar às anteriores, me parabeniza por mais uma etapa: “Parabéns. O segundo dígito é 6. Dois dígitos restantes.” Rapidamente anoto o novo número no mesmo papel de antes.

Porém, diferente das anteriores, não tenho nenhuma dica em vídeo agora. Dessa vez, vejo uma digitalização da lista de materiais de escritório que nós adquirimos no mês passado, além de um campo de resposta.

            Para fins de organização, retorno os encadernados à prateleira de onde os retirei. Eu não gosto do meu trabalho, mas isso não signifique eu possa fazê-lo mal feito ou ir contra as Diretrizes do Secretariado Independente do Brasil. Uma vez que tudo está organizado, hora de voltar para as caixinhas. A próxima é a caixa da cestinha de mercado com a foto do personagem genérico de anime.

            Sendo bem sincera, esse foi o mais fácil até agora porque eles repetem esse termo em todos os lugares que vão. Parecem até os papagaios da minha vizinha. Insuportáveis. Ambos.

            Eu digito no terminal o termo “Lista de compras”. Eles vivem falando como os autores iniciantes fazem descrições que parecem lista de compras, listando as características dos personagens que ninguém se importa. Eu não me importo nem com personagens medianos, quem dirá com personagens que eu nem sei quem são e parecem ter saído diretamente de trinta e nove animes genéricos que saem toda temporada.

            O terminal brilha mais uma vez, aumentando as chances de eu desenvolver algum transtorno visual em breve. Precisarei marcar um retorno com meu oftalmologista porque meus chefes me deixaram trancada no escritório. Mais uma vez, a mensagem aparece: “Parabéns. O terceiro dígito é 1. Um dígito restante.”

            — Apenas um dígito restante. Agora você já deve ter entendido o que está acontecendo, não é, Célia? — O idoso estava com roupas diferentes. Um cachecol vermelho e um sobretudo com tons mais esverdeados. — Existe algo muito mais profundo acontecendo aqui.

            Os olhos cansados sob as lentes me fitavam como nunca antes. Provavelmente porque ele não teria coragem de fazer isso pessoalmente.

          — Sem poder ir à cozinha, sem poder ir à recepção. Trancafiada. Sem conversar com ninguém. Tudo bem que você adora a última parte, mas tudo bem. Esses números devem ter lembrado de alguma coisa.

          — Lembraram, sim. Infelizmente.

          — Eu imagino que você tenha respondido a essa mensagem gravada ou esmurrado o monitor. De qualquer maneira, preciso que saiba de uma coisa. — Sua expressão se tornou mais séria com o findar da frase. — Mas, antes, digite o último número para mim.

            O vídeo some e apenas um grande campo de resposta aparece no meio da tela. Eu digito o número dois e aperto Enter. Dessa vez, o sistema sequer hesita. O vídeo retorna.

            — Correto. — O velho enrola um cachecol em volta do pescoço e parece se apressar para sair de algum lugar. — Não se assuste. Você foi chamada pelo MLN por um motivo. Você passou em todos os treinamentos de primeira por um motivo. E isso tudo está acontecendo por um motivo. Acredite quando eu digo que você não está ficando doida.

            — Como assim? — O meu tom de voz não se ergue desse modo há um tempo.

            — Fique tranquila. Lembre-se que você já viveu coisa pior. Qualquer coisa, ligue para quem precisar. O seu sinal voltou, assim como seu acesso ao restante do prédio. A gente se vê em breve, mas precisamos de mais tempo. Feliz Natal. — O vídeo, então, fica totalmente preto.

            Todas as luzes se apagam. O meu celular vibra com infindáveis notificações. Entretanto, uma delas me chama a atenção. Um número desconhecido me enviou uma mensagem.

            — Mas o quê?


            Uma nova oportunidade de emprego. Sair desse lugar de uma vez por todas. Nada me impede agora. Exceto por uma coisa.

            Célia... — Uma voz sussurrada ecoa na escuridão da sala. — Eu tenho 18 anos, cabelo preto, terno preto, sapato branco, uma marca de raio na testa e estou atrasado para meu primeiro dia de aula. MÃE, EU JÁ VOU!


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