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sábado, 22 de dezembro de 2018

Uma Jornada de Natal: A Biblioteca da Verossimilhança

Ferona respirou fundo. O trem se fora, ele estava sozinho. Perante si, uma porta de madeira com aspecto rústico, sabia que deveria entrar nela. Se sentia preparado, mas alguma coisa no canto de sua mente diria que seria uma dor de cabeça o que viria a seguir.

Ele colocou a mão na maçaneta. Abriu a porta e entrou.

A visão que o recebeu foi deveras inusitada. Pilhas e pilhas de livros que mal permitiam sua passagem, estantes e mais estantes recheadas de livros e poeira. Muita poeira. Ferona foi adentrando com cuidado para não derrubar nenhuma das pilhas. Não via ninguém por perto, era mesmo o local certo?

—  Sim, você está no lugar certo. Agora se apresse e feche essa porta, pois está frio! —  berra uma voz aguda.
Assustado pelo grito, ele fecha a porta e corre até a origem da voz. Não encontrada nada, olha por sobre mais pilhas e pilhas de livros. Nada. Até que então, sente uma dor na nuca, um livro havia o atingido.

— Pare com esse olhar estabanado de cachorro sem dono e seja útil! Recolha aquele livro! —  ordena a voz, brava. É então que Ferona descobre quem, ou o que, era: um par de óculos.

Obedecendo, ele pega o livro e guarda onde provavelmente estava, o par de óculos não parece feliz. Será uma longa noite...
— Pois bem, aqui não tem marola. Vou direto ao ponto, o que falta em vocês, autores, é justamente pensar na verossimilhança. Ah, pela sua cara de perdido como cego em tiroteio, já sei que não faz a mínima ideia do que é isso. Pegue um dicionário e aprenda! Não estou aqui para fazer o serviço por você!

Verossimilhança é a característica do que é verossímil, que apresenta ser ou ter tido como verdadeiro. Na literatura, a verossimilhança é a coerência e ligação harmônica entre os elementos fantasiosos ou imaginários que são essenciais para o entendimento do texto. É o que nos faz acreditar no texto.

— Já dizia um antigo filósofo com muito tempo livre: "Não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer, o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade."

Ferona quis responder, mas o óculos mal o deu tempo de pensar. 

— Ora, ora. Não faça esse ar "mas não sou poeta", poeta é o que representava todo escritor antigo, fosse ele de prosa ou poesia. Já vi muitos como você, se acham sensacionais, querem inovar o mundo, tem uma ideia e tanto, mas não ligam para o que importa, não pensam na verossimilhança.

De nada adianta ter uma história incrível sem verossimilhança. Mas o que seria verossimilhança, além da definição dada acima? E como aplicá-la em sua novel? Primeiro, vamos entender como ela funciona.


— Ora, pois bem. Muitos de vocês vivem sonhando com mundos fantásticos, mas se enbananam na própria criação deles. Se você quer criar algo, precisa pensar nas regras que regem esse mundo e em como respeitá-las!

Muitas vezes, queremos escapar da obrigação de respeitar as leis do nosso mundo criando um mundo fictício em que as personagens podem saltar de prédios como se não fosse nada demais, quebram as leis da física, seguram foices que pesam cem toneladas como se não fosse nada... mas não é tão simples. Todo mundo precisa de regras. E essas regras precisam ser respeitadas.

Se você cria um universo que tenham dragões e embora eles sejam as criaturas mais rápidas que existem naquele universo, ainda será ridículo que um deles cruze uma distância muito maior que a maioria na metade do tempo de repente. Você precisa dar um motivo plausível para isso.

Se existe magia no seu mundo, ela deve funcionar de alguma forma lógica, não é gritando "BOLA DE FOGO" que você vai soltar uma torrente de água dos pés. Não, as coisas devem seguir uma lógica que o leitor acompanhe. 

Isso é chamado de verossimilhança interna: respeitar a lógica de seu próprio mundo.


— E tem muitas outras formas de não se respeitar a lógica do seu mundo. Acha que isso só se aplica à fantasia? Errou e errou feio. Verossimilhança é justamente nos convencer. Você convence o leitor. Não o contrário, estamos entendidos? Ora bolas, que cara de paspalho que não acompanha é essa?

Ferona olhava o óculos que ia de canto em canto e colocava os livros nas estantes como se tivesse membros invisíveis. Ele se aproximou e conferiu a capa de um livro. Era uma enciclopédia. 

— Por que está tão surpreso? Acha que devemos somente ler obras literárias para criar uma atmosfera realista? Escrever é um ato que requer pesquisa, e muita, jovem escritor. Não é só escrevendo como você acha que é o mundo que isso está certo. Vai ser que nem o outro esquisito que veio aqui, querendo me convencer que um japonês, em Kyoto, poderia comprar uma esfirra de carne e cafezinho como se fosse um bar brasileiro, mas pode essa?

É isso mesmo, a verossimilhança não está somente em como um mundo funciona, mas nos pequenos detalhes. Se você quer escrever sua novel em um local existente, você deve pesquisar. O estilo de vida, as ruas, os horários de funcionamento, tudo muda conforme o local, pode ser até no mesmo país, mas as coias mudam bastante. Ou você acha que o jeito que as coisas acontecem em São Paulo é igual à Fortaleza?

Pesquisar é essencial. Não fale sem ter pesquisado e ter certeza de que é aquilo mesmo.

Não pense que "ah, ninguém vai notar". Seus leitores vão.

Não chame o leitor de bobo.

Essa é a verossimilhança externa: respeitar os conceitos do mundo em que você está. Da realidade.


— Mas pois muito que bem. Sabe qual era a pior? O cara começou com um papo de Kyoto, mas de repente soltou um Tóquio. Eu mandei ele ir pastar em outro lugar se quisesse ficar trocando essas coisas, não é assim que a banda toca, se você for usar a grafia americana, fique com ela até o final. Se for usar a brasileira, use a brasileira. Não misture alhos com bugalhos. Se você está seguindo uma linha de raciocínio, permaneça nela, nem que se trate de, bombas, a forma como grafa os nomes das cidades, está me entendendo?

Os pequenos detalhes importam. E muito.

Não somente na questão de onde a sua história se passa, mas é preciso pensar em muita coisa, você quer fazer um protagonista de um sexo diferente do seu, mas não tem certeza de como outra pessoa reagiria a algo assim. Pesquise, pergunte para seus amigos, não fale como se conhecesse tudo sobre o outro sexo ou a situação de outra pessoa.

Pesquisar e se ater à realidade dos fatos é o que pode salvar a sua novel da reprovação. Não é escrevendo o que vem à sua mente que vai tudo dar certo. Não, escrever é uma ato que envolve melhorar o que foi criado. Seja revisando ou conferindo a verossimilhança dos fatos do texto.

— Pois bem, você já ouviu muito de mim. A saída é logo ali. Não vou te levar até ela. Você tem duas pernas para andar sozinho, se vire e corra atrás. Eu tenho muito que pesquisar, e outros autores precisam levar bronca por suas prosas não críveis, agora que já teve sua cota, vai que a fila anda.

Ferona segue na direção indicado pelo par de óculos. Seu anfitrião ficaria bravo se ele perdesse seu tempo despedindo-se, então ele saiu sem dizer nada. O tom brusco não foi de maldade, mas sim um aviso. É importante ater-se aos fatos.

Ele chega até outra porta, sua jornada estava terminando... aquele seria o fim.


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